“O humor é a lupa da vida: amplia os detalhes mais simples e transforma-os em sorrisos.”
Infância e primeiras experiências
Nasci a 8 de abril de 1971, na freguesia da Sé, no Porto, num Sábado de Aleluia. Não sei se o Aleluia foi por eu ter nascido ou pelas outras 20 milhões de pessoas que também nasceram nesse dia.
Sempre fui um rapaz normal, mais ou menos normal. A primeira vez que notei que era um pouco diferente dos meus colegas foi na pré-primária. No jardim do colégio havia uma laranjeira. Enquanto os meus colegas subiam à árvore para colher as laranjas, eu sentava-me debaixo dela, de mãos abertas, à espera que caísse uma laranja nas minhas mãos — ou que algum deles escorregasse, caísse no chão e deixasse a laranja para mim.
A primeira vez que subi a um palco tinha seis anos, numa peça da escola. Não sei qual era a peça; lembro-me que havia um ardina a vender jornais e que eu fazia de polícia. Sentia-me todo orgulhoso: tinha a farda completa, com boné e um grande cassetete!
A segunda vez foi também na escola, aos nove anos, numa festa com vários números, do teatro à música. A meio da festa algo correu mal e uma das professoras olhou para mim e disse: “João, vai ali para o palco e entretém as pessoas enquanto resolvemos isto.” Foi a minha primeira vez sozinho em palco, e de improviso. Não sei o que disse, não me lembro do que fiz, mas no dia seguinte recebi muitos elogios… Até hoje estou para descobrir se estive mesmo bem ou se eram todos uma cambada de mentirosos!
Do polo aquático à tuna
Depois disso segui o percurso normal de qualquer criança: estudar, jogar futebol e muita diversão. Troquei o espetáculo pelo desporto — andebol e depois polo aquático, onde fui campeão nacional e vencedor da Taça de Portugal pelo CDUP.
Na hora de escolher a universidade, a escolha recaiu sobre a Universidade do Minho e o curso de Matemática e Ciências da Computação. Mudei-me de armas e bagagens para Braga em 1990. Mas só o estudo não chegava, e com mais 14 amigos fundámos em 1992 a Tuna de Ciências da Universidade do Minho. Como eu não sabia tocar muito bem, puseram-me a apresentar a tuna. Entre duas músicas lá ia eu ao microfone e, além de apresentar a música seguinte, dizia meia dúzia de disparates.
Reparei, com alguma estupefação e contentamento, que as pessoas se riam do que eu dizia. Durante uns dez anos percorremos as grandes salas do país — dos Coliseus do Porto e de Lisboa ao Theatro Circo em Braga, ao Centro Cultural de Belém e ao Teatro Aveirense — e fomos ao estrangeiro: Irlanda, Bélgica, Holanda, Itália, Brasil, França e Espanha. E não é que os estrangeiros também se riam? Devia ser da minha cara, porque eu a falar estrangeiro sou como um político a falar verdade.
O mundo real do trabalho
Depois de vários part-times, de barman a instrutor de aeróbica, em 2000 entrei no mundo real do trabalho: programador multimédia no IDITE-Minho, diretor criativo da Illinc New Media, programador multimédia freelancer e formador de informática certificado. Ganhava a vida com computadores, mas a cabeça já estava no palco.
Em 2002, no Enterro da Gata, a meio de um concerto, eu e mais quatro amigos pensámos: “Gostava de estar ali a tocar músicas que este pessoal todo curtisse.” E como querer é poder, nasceram os Neurónios Abariados, uma banda de covers (e alguns originais). Em 2003 já estávamos no palco principal do Enterro da Gata. Centenas de luzes, fumo, milhares de pessoas à frente e um som de rebentar — uma experiência eletrizante.
2003: a entrada no stand-up
No final de 2002 realizou-se o 1.º Festival de Stand-Up de Braga e vários amigos “obrigaram-me” a inscrever-me. Inscrevi-me, participei e gostei. Veio o convite para o Levanta-te e Ri, onde participei em 44 programas. 2003 marcou a minha entrada a sério na stand-up comedy: bares, auditórios, festas de empresas e destaque no Festival Internacional de Teatro Cómico da Maia.
Nesse ano formei com o Carlos Moura e o José Moreira o trio Clube da Comédia e, mais tarde, juntámo-nos ao Miguel 7 Estacas, ao Hugo Sousa e ao Paulo Baldaia nos Sestículos, para reunir quem fazia stand-up no norte do país. Em 2004 fiz mais de 100 atuações por todo o país e em 2005 comecei a escrever guiões para outros, incluindo para o Miguel Barros e para personagens do Fernando Rocha no Levanta-te e Ri.
Com o Miguel 7 Estacas e o Hugo Sousa criámos “A Meia de Leite” e, em 2007, o espetáculo Stand da Comédia, com stand-up e sketches, que deu origem à peça “A História de Portugal em 90 minutos”, que andou pelo país inteiro.
Televisão, rádio e cinema
Em 2006 comecei a dar a cara no Porto Canal com o “Por um Canudo”, seguido de “Romarias”, “Humor Cão” (que também escrevi) e o programa ao vivo “Bolhão Rouge”. Em 2013 tive um programa diário na rádio Nove3Cinco.
No cinema, estreei-me com a curta-metragem “Desta Água…”, fiz de polícia em “Balas & Bolinhos: O Último Capítulo” e, já durante a pandemia, gravei com o Fernando Rocha o filme “2 Duros de Roer”, a minha primeira vez como protagonista — e também com argumento meu. Seguiu-se “Idade da Pedra”, em 2024. Na televisão, o Sidónio também ganhou fama: já esteve comigo em programas como “A Vida Lá Fora” e “Casa Feliz”. Vê os filmes e programas.
Em 2011 fui orador no TEDx Guimarães e atuei no “Maior Evento de Comédia do Mundo”, no Pavilhão Rosa Mota, para mais de 5 mil pessoas. Em 2016 participei no Got Talent Portugal da RTP1 e, a partir de 2019, voltei ao Levanta-te e Ri da SIC.
Palcos pelo mundo
Para além de festivais como o SolRir em Portimão e o HumorFest em Lagoa, levei o humor a quem está longe: São Paulo em 2010, com humoristas brasileiros; o “Portugal vs Brasil em Stand-Up Comedy” em 2012; comunidades portuguesas na Holanda, Luxemburgo, Suíça, França e Bélgica; Macau em 2014; EUA, Canadá e Alemanha a partir de 2016; o Festival de Comédia de Língua Portuguesa em Moçambique em 2017; e a primeira atuação em Angola em 2019. Pelo meio, o “Portugal a Rir” no Canadá e nos EUA, o “Le Portugal du Rire” em Sartrouville, os Coliseus de Lisboa e do Porto, os Casinos de Espinho e da Figueira da Foz e uma digressão pelos Açores.
Ao todo, já fiz rir em 14 países: Portugal, Brasil, Holanda, Luxemburgo, Macau (China), França, Suíça, Canadá, Estados Unidos, Angola, Moçambique, Alemanha, Bélgica e Mónaco.
Desde 2017 há uma tradição de Natal: o Pi100Pé Especial Natal no Teatro Sá da Bandeira, no Porto.
Pandemia e regresso
2020 começou auspicioso — SolRir, Levanta-te e Ri, EUA — até chegar a COVID e acabarem os espetáculos com público. Houve experiências novas, como atuar em drive-ins (para carros!) e online. 2021 foi uma montanha-russa de cancelamentos e salas a meio gás. A partir de abril de 2022 tudo voltou ao normal — e em novembro desse ano fui eu o alvo, no Roast João Seabra, no Altice Forum Braga. Em 2023, os espetáculos espalharam-se pelo país e pelas comunidades portuguesas, dos Açores ao Algarve, passando por Luxemburgo, Paris e Bruxelas.
E a história continua — de preferência, com uma sala cheia à frente. Vê onde vou estar a seguir.










